Natanzinho Lima em apresentação durante o Festival de Inverno Bahia 2025.
Laécio Lacerda
O Nordeste ostenta hoje o título de principal casa dos shows públicos no Brasil.
É o que aponta um levantamento do observatório “De Olho nos Ruralistas”, que analisou mais de 20 mil contratos firmados por prefeituras e governos estaduais entre janeiro de 2024 e março de 2026.
Das 7.412 apresentações identificadas no período, 5.818 ocorreram no Nordeste. Para viabilizá-las, foram desembolsados R$ 2,22 bilhões dos cofres públicos em contratos com artistas.
Mas por que uma única região do país concentra mais recursos públicos para shows do que todas as outras juntas?
Para responder a essa pergunta, o g1 ouviu pesquisadores responsáveis pelo estudo, especialistas em gestão pública e profissionais do mercado de shows.
Segundo eles, o fenômeno é resultado de uma combinação de fatores, como:
concentração do mercado nas mãos de grandes produtoras nordestinas;
articulação de políticos locais considerando o retorno de visibilidade;
geografia favorável, que reduz custos e facilita rotas de apresentações.Antes de detalhar essas explicações, confira outros recortes do levantamento:
Quais estados gastaram mais?Pablo canta ‘Tomara’ no Festival de Inverno Bahia
Reprodução/TV Sudoeste
Bahia e Pernambuco lideram os gastos com shows públicos no país. Desembolsaram R$ 578,47 milhões e R$ 573,10 milhões em contratos, respectivamente.
No outro extremo do ranking, o Piauí foi o estado que menos gastou na região: R$ 79 milhões.
Os valores consideram tanto os cachês pagos diretamente pelos governos estaduais quanto aqueles firmados por prefeituras.
Confira o ranking completo abaixo:
Quais estados do Nordeste contrataram mais? Região concentrou 72% do total de cachês pagos e 78% das apresentações realizadas desde 2024 até março de 2026.
Arte g1
Quais gêneros faturaram mais?
Zé Vaqueiro, São João de Petrolina 2026
Ascom/PMP
Apesar do avanço do sertanejo nas festas populares nordestinas dos últimos anos (como mostrou a reportagem “Cantores de forró cobram por espaço e cachês maiores no São João do Nordeste”), os ritmos tradicionais da região ainda seguem dominando o mercado de shows públicos.
Entre os 40 artistas mais contratados do país, os do piseiro movimentaram R$ 913,04 milhões em contratos públicos, dos quais 88% foram pagos por estados nordestinos.
Quais artistas receberam mais?
Natanzinho Lima entrega show para espantar o frio na primeira noite do Festival de Inverno Bahia
Fabrício Santiago
No topo da lista aparece o cantor sergipano de 23 anos, Natanzinho Lima.
Considerando os contratos firmados em todo o país entre janeiro de 2024 e março de 2026, ele recebeu R$ 158,17 milhões para a realização de 336 shows.
Como o período analisado corresponde a 27 meses, a média equivale a 12,4 shows públicos por mês — aproximadamente três apresentações financiadas com dinheiro público por semana.
Logo atrás aparecem Henry Freitas, com R$ 125,9 milhões, e Wesley Safadão, com R$ 113 milhões em contratos públicos.
Veja ranking completo abaixo:
O top 10 dos artistas que mais receberam dinheiro público com shows desde 2024.
Arte g1
Quanto R$ 3 bilhões representam para a cultura brasileira?
Henry Freitas
Divulgação
O levantamento completo, disponível no site do observatório, reúne uma série de recortes sobre o mercado de shows públicos no Brasil.
Um deles traz o ranking dos 40 artistas que mais receberam recursos públicos para apresentações desde 2024. Juntos, esses nomes acumularam R$ 3,08 bilhões em contratos no período.
O valor se aproxima do recorde anual de captação pela Lei Rouanet, que alcançou R$ 3,41 bilhões em 2025.
Mas há uma diferença importante: os recursos da Lei Rouanet são destinados a milhares de projetos culturais, como teatro, dança, literatura, museus, patrimônio histórico, artes visuais e audiovisual, por meio de incentivo fiscal.
Já os valores identificados no levantamento correspondem a pagamentos diretos dos cofres públicos para contratar shows de apenas 40 artistas.
Os números mostram, até aqui, o tamanho da indústria dos shows públicos no Brasil. Agora, entenda o que explica a concentração desses recursos em uma única região do país:
1) A força das produtoras nordestinas 
Wesley Safadão (Camarote Shows), Xand Avião (Vybbe) e Pablo (M&P) são sócios fundadores de grandes produtoras de shows.
Redes sociais
Um dos principais fatores que ajudam a explicar a concentração dos shows públicos no Nordeste está na estrutura do próprio mercado musical.
Cinco produtoras sediadas na região administram as carreiras de 21 dos 40 artistas que mais receberam recursos públicos desde 2024 no Brasil.
Juntas, elas somam R$ 2,4 bilhões em contratos.
Confira abaixo quem são essas produtoras e o tamanho da presença delas no mercado de shows públicos:
As 5 produtoras que passaram a concentrar parte dos artistas mais contratados por prefeituras e governos.
arte g1
Além de administrar a carreira de artistas já consolidados, essas produtoras também impulsionam novos nomes e aceleram a valorização de seus cachês.
“Elas conseguem fechar muitos contratos por causa do poder institucional e político junto às prefeituras e aos governos estaduais. É preciso dizer: a agenda dos shows públicos no Brasil, hoje, quem faz são as produtoras”, afirma Alceu Castilho, jornalista que coordenou o levantamento do observatório De Olho nos Ruralistas.
2) A vontade política de investir 
Raquel Lyra (PSD) ao lado do cantor Natanzinho Lima durante apresentação do festival Pernambuco Meu País, em edição no Recife, em dezembro de 2025. Recebeu R$800 mil pela apresentação.
Redes sociais
A força das produtoras, porém, depende de um elemento central: a decisão dos gestores públicos de destinar recursos para a contratação desses shows.
Entre os governadores de todo o país, Raquel Lyra (PSD), de Pernambuco, aparece como a gestora que mais contratou artistas do ranking. Desde 2024, sua administração destinou R$ 57 milhões em cachês para 25 dos 40 nomes mais contratados.
Para Wallace Corbo, doutor em Direito Público e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), uma das razões que ajudam a explicar a decisão de destinar grandes quantias dos recursos públicos para shows está no retorno político mais imediato que eles podem oferecer aos gestores.
“É um contraste com outras áreas, como saúde, saneamento e educação, em que o retorno demora anos para aparecer. São investimentos necessários e importantes, mas que não trazem aquela satisfação imediata do eleitorado que os shows podem trazer”, afirmou.
Diante do volume de recursos destinados a esses contratos, o g1 procurou o Governo de Pernambuco para saber como a gestão avalia os benefícios desses investimentos para a população e de que forma equilibra os gastos com outras áreas prioritárias. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.
3) A geografia que favorece os circuitos 
João Gomes viajando de ônibus com a banda
Divulgação/Daniel Mendes
Além da concentração do mercado nas mãos de poucas produtoras e da decisão de governos locais de destinar grandes volumes de recursos públicos para shows, há um terceiro fator que ajuda a sustentar esse modelo: a geografia.
Segundo Elver Panda, produtor e empresário que já trabalhou com nomes como Marília Mendonça e Henrique e Juliano, a proximidade entre os municípios do Nordeste reduz custos e permite que artistas encaixem diversas apresentações em uma mesma rota.
“A logística é um dos principais vilões do roteiro de um artista. Se você vai para uma região para cumprir um único show, você deixa todo o lucro na estrada, na logística. No Nordeste, você consegue fazer muita ‘dobra terrestre’, porque muitos municípios estão a apenas 80 ou 100 quilômetros de distância uns dos outros”, afirmou.
Segundo ele, essa dinâmica é diferente em regiões como o Norte do país, onde as maiores distâncias entre os municípios, somadas à menor oferta de malha aérea e aeroportos, tornam esse tipo de operação mais cara e complexa.
Em relação às diferenças para a região Centro-Sul, o produtor explica que o mercado de shows segue uma lógica distinta.
Enquanto o Nordeste consolidou um circuito de festas públicas municipais, no Sul, Sudeste e Centro-Oeste predominam os grandes eventos privados.
“As prefeituras do Centro-Sul fazem festas, sim, mas em menor número e com uma estrutura menor. Os grandes eventos, como os rodeios, são privados. Já no Nordeste, tanto as festas do interior, como o São João, quanto as do litoral, como Carnaval e Réveillon, contam com grandes investimentos públicos e chegam a ter um padrão quase internacional”, concluiu.
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O outro lado da conta
Um dia após fortes chuvas, bairros de Goiana, em Pernambuco, seguem submersos. Em alguns pontos, só é possível ver o telhado das casas
Reprodução/TV Globo
Essa mesma estrutura que transformou o Nordeste no principal circuito de shows públicos do país também levanta uma discussão sobre o espaço que esses investimentos ocupam dentro de orçamentos municipais limitados.
Um dos exemplos que mais chama a atenção dos pesquisadores no levantamento é o de Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco.
Com cerca de 85 mil habitantes, o município aparece como o quarto maior contratante de shows públicos do país, atrás apenas das capitais Aracaju, Salvador e Maceió. Destinou R$ 25,58 milhões para a contratação de artistas, entre janeiro de 2024 e março de 2026.
A grande questão é que, em paralelo a isso, a cidade enfrenta desafios severos em serviços básicos: segundo o Instituto Água e Saneamento (IAS), cerca de 45% da população vive sem água tratada e 60% não têm acesso à rede de esgoto .
Além disso, há menos de um mês, fortes chuvas deixaram bairros inteiros submersos e cerca de 500 pessoas ficaram desalojadas, conforme noticiado pela TV Globo e pelo g1.
Vídeo mostra alagamento na cidade de Goiana, na Mata Norte de Pernambuco, em meio às fortes chuvas na região
Reprodução/redes sociais
É nesse tipo de cenário que Wallace Corbo recorre à metáfora do “cobertor curto”, usada para explicar as escolhas feitas pelos gestores na hora de distribuir recursos.
“Como se diz na gestão pública, quando você cobre o peito, deixa o pé descoberto. O orçamento é limitado, ou seja, se há um investimento muito grande em shows, esses recursos deixam de estar disponíveis para outras áreas”, afirmou.
O g1 procurou a Prefeitura de Goiana para saber quais critérios têm orientado a definição das prioridades orçamentárias do município e como a gestão está equilibrando os investimentos em eventos com as outras demandas da população. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.
Fonte: G1 Entretenimento
